Cadastre-se NEWSLETTER
Cadastre-se para receber
nossos informativos
Nome
E-mail
  CADASTRAR
twitter
Tamanho da Fonte A A

ARTIGOS

Quando a Beleza Não é Fundamental

Autor: Suely Pavan
Data: 18/07/2008

A executiva de marketing me procura logo cedo. Ao entrar na minha sala sua expressão denota irritação. Ela me conta que T., sua subordinada que ocupa o cargo de gerente de produto, foi o maior fracasso na convenção de vendas. E que houveram muitas reclamações dos participantes presentes quanto à apresentação que T. fez da área que gerencia. A executiva me conta que estava decepcionada com sua funcionária.

Nunca havia visto esta executiva de marketing tão brava assim. Normalmente ela é uma mulher comedida, tanto no jeito de falar como no de se portar.

Logo após, sou procurada pela gerente de negócios da empresa. Ela me faz a mesma reclamação. Porém, enfatiza que o jeito de T. não foi aceito pelos participantes da convenção. Diz que vários reclamaram da postura dela. F., a gerente de negócios, é uma mulher que preza o lado intelectual. Gosta de ser notada pela sua inteligência, não se preocupa com sua aparência. É discreta e usa sempre o mesmo estilo sóbrio e cinza de roupas.

À fim de obter dados, vou atrás de K., o diretor da empresa e responsável pela convenção anual de vendas. Ele me conta do sucesso da convenção e lhe faço perguntas específicas sobre a apresentação de T. com muita cautela. Animado, ele fala sobre o desempenho de T. Diz que ela o surpreendeu, e foi extremamente bem avaliada pelos participantes. Faz questão de me mostrar as avaliações feitas por eles quanto à apresentação de T. E, como contra fatos não há argumentos, T. foi um sucesso!

Diante destes dados minhas suspeitas quanto às reclamações das duas mulheres são confirmadas. Elas estão apenas com muita inveja de T.

Em tempo: K. é um homossexual assumido, portanto não tem nenhum interesse sexual em T. para defendê-la. Saio da sala dele e no corredor avisto T.

T. tem um corpo curvilíneo. Destes que os homens adoram, mas a maioria das mulheres detesta. T. não é magra, ela é gostosa. Na visão feminina poderia até ser chamada de “gordinha”. Tem um jeito muito sexy de andar, só que o faz de forma natural. Posso dizer que T. é espontaneamente sedutora. Seus seios fartos e naturais balançam quando ela anda. Ela é bem discreta ao se vestir. Não faz caras e bocas, e nem tenta chamar a atenção dos homens. Ela é apenas do jeito que é!

T. vem ao meu encontro muito abatida. Ela diz não entender o que está acontecendo com sua chefia, já que acreditava que tivesse se saído bem na convenção. Conta que ainda não havia acessado as avaliações dos participantes.

Nós duas conversamos por cerca de duas horas sobre o ocorrido. Ao final lhe digo que ela tem duas opções:

• Mudar o seu jeito de andar e falar, e desta forma deixar de ser quem ela é
• Ou aprender a lidar com a inveja feminina entre as mulheres dentro do ambiente organizacional

Contei a T. também alguns dados sobre a forma como a feminilidade é negada e não aceita nos ambientes ainda estruturalmente masculinos das empresas.

T. sai com seu andar sinuoso da minha sala.

As mulheres que reclamaram dela nunca mais tocaram no assunto. Eu mesma fiz questão de mostrar a elas a avaliação dos participantes na convenção. Disse ainda que isto foi uma percepção apenas delas, e que "talvez" outros motivos tenham gerado estas reclamações.

Graças à minha intervenção nada aconteceu a T. Ela continuou andando de seu jeito. Após o nosso papo ficou ainda mais bonita e, claro, ainda teve que colecionar desafetos dentre a população feminina da empresa.

Mas nem todas as mulheres têm a sorte de contar com a defesa de outra mulher. Quantas perdem seus empregos? Outras ainda têm que se submeter a trajes, como o tal terninho, apenas para encobrir curvas, e a famosa bunda da mulher brasileira. Nos corredores das empresas não são bem vindas as formas femininas. Tem gente que apregoa que roupas para trabalhar devem ser semelhantes a fardas usadas no exército. E preferencialmente com dois números acima do usado pela invejada!

Aos poucos as mulheres estão ocupando seu merecido espaço no contexto corporativo, mas as exigências quanto a um padrão comportamental e estético ainda são exageradas.

Eu mesma já perdi diversos trabalhos quando me deparei com clientes do sexo feminino que eu conhecia apenas por telefone ou e-mail. Ao me verem pessoalmente algumas disseram: "pensei que você fosse diferente, mais baixa e..." O problema não são os comentários, mas a "cara de decepção". Como se mulheres competentes tivessem que ser sempre sérias, baixas, gordas e literalmente assexuadas!

Recentemente ministrei uma palestra numa empresa. Logo após houve um show com música brasileira. Todos estavam dançando, inclusive eu. Porém a gerente de RH me lançava o mesmo olhar recriminatório que me lançou o tempo todo na palestra. Vi que ela estava incomodada pela minha presença física. Até que ela chegou perto de mim e sussurrou no meu ouvido: por favor, pare de dançar o presidente não está gostando e acabou de reclamar!

O presidente estava a metros de distância e também dançava e nada parecia incomodá-lo!

Vinicius de Moraes que me perdoe, mas no ambiente organizacional beleza nem sempre é bem vinda, às vezes até atrapalha quando nossos chefes e clientes são mulheres.

Parece até que quem é bonita tem menos valor. Como se inteligência e beleza fossem incompatíveis!

E infelizmente este preconceito vem justamente das próprias mulheres, que enxergam na outra ainda uma rival. Uma pesquisa da Revista Fortune diz que os ambientes mais hostis são aqueles onde muitas mulheres dividem o mesmo espaço numa organização.

Embora eu também já tenha lidado com casos de executivos que, na hora da contratação, preferem um homem a uma mulher bonita. Quando lhes perguntei a razão eles me disseram:

- Se minha mulher chegar aqui e ver esta moça bonita vai achar que eu a contratei apenas para ficar admirando-a. Vou ter que escutar muito quando eu chegar em casa, e terei que provar que a moça, "apesar" de bonita, também é capaz!

ComenteComente | Veja os ComentáriosVeja os comentários
Suely Pavan é psicóloga psicodramatista, supervisora didata de Psicodrama pela Federação Brasileira de Psicodrama. Diretora da Pavan Desenvolvimento, empresa de prestação de serviços inovadores em Seleção de Executivos, Coaching de Talentos, Desenvolvimento Pessoal e Profissional. Seu foco é a mudança, a espontaneidade do indivíduo e o seu desenvolvimento ético-relacional.
Site: www.pavandesenvolvimento.com.br
E-mail: faleconosco@pavandesenvolvimento.com.br
Veja outros artigos desse autor


Fale Conosco | Quem Somos | Programação | Na Mídia
Desenvolvido por PRAXYS Produtora Web