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ARTIGOS

Oferta de Crédito e Inadimplência

Autor: Sérgio Waib
Data: 22/04/2009

Os bons pagam pelos maus pagadores

Há cerca de 10 anos, foi lançado no cinema o filme Almost Famous (no Brasil, Quase Famosos) que tratava da história de um correspondente da famosa revista americana Rolling Stone. Na verdade, o tal correspondente era um garoto, ainda imberbe, fã das grandes bandas de rock dos anos 1970, mas que tinha conhecimento sobre o que falava, paixão, dedicação e muita garra para acompanhar os seus astros do rock e escrever para a publicação. Mas era um garoto. E se saia muito bem entre os adultos.

Esse filme, de certa forma, me lembra o Brasil em relação às demais economias mundiais. Temos conhecimento (de crises), dedicação (não desistimos nunca, certo?) e garra (alguém duvida?) para nos compararmos às maiores potências mundiais. Mas, no mercado de crédito ainda estamos na infância. Sim, nós somos o garoto daquele filme!

Diferentemente do que acontece em outros países, não apenas a oferta de crédito no Brasil é mais escassa – mesmo porque nos períodos de alta inflação pouco dinheiro havia para ser ofertado e os altos juros comprometiam boa parte da renda –, como também a própria solidez do mercado financeiro foi moldada para proteger o sistema contra eventuais calotes; um modelo que seguiu já com a estabilidade econômica provinda do Plano Real.

Com toda essa rigidez, o mercado financeiro brasileiro deu um exemplo ao mundo, principalmente com a crise que se alastrou por todas as economias mundiais, fruto do estilo americano de liberação de crédito que ocasionou o estouro da bolha imobiliária.

O único exemplo que não serve de modelo para os outros e que continua à risca no Brasil é a alta taxa de juros praticada aqui. Os brasileiros ainda pagam caro por isso e o pouco crédito que há é insuficiente para girar a economia nacional.

Mas como na realidade brasileira os potenciais planejadores – aqueles que são bem rígidos em suas economias até atingir um valor para a meta almejada – são poucos, faz parte da cultura endividar-se. Do total de veículos novos comercializados no país, a maior parte, cerca de 70%, é financiada. O mesmo vale para a compra da casa própria: em janeiro deste ano, somente no Estado de São Paulo a venda de imóveis financiados pela Caixa Econômica Federal cresceu 220% em comparação ao mesmo mês de 2008. Esses dois exemplos ilustram o quanto o Brasil precisa ofertar crédito para mover a economia, ainda pouco expressivo e porque, de acordo com Francisco Valim, presidente da Serasa Experian, “o mercado brasileiro ainda está na infância em termos de crédito”.

Comparando o Brasil com as demais economias mundiais, a frase de Valim é bem verdadeira. Enquanto por aqui a oferta de crédito é abaixo de 42% do PIB, nos países desenvolvidos ela já é de mais do que o dobro. E, somada a essa escassez, temos ainda as mais altas taxas de juros do mundo, o que resulta, literalmente, no enforcamento de boa parte da população que perde o sono fazendo contas e pensando como reduzir custos para sair do vermelho e da inadimplência. Uma bola de neve que traz consequências diretas à economia nacional.

O Governo tem demonstrado como a iniciativa de reduzir juros pode gerar impactos positivos e de imediato para os setores beneficiados. O exemplo mais recente foi a redução do IPI para a venda de veículos novos. Como consequência, o terceiro mês deste ano foi “o melhor mês de março da história” da indústria automobilística, com vendas superiores a 36,1% em relação a fevereiro, e de mais de 18% em comparação a março de 2008. Se a fórmula é simples e o Governo não perde em arrecadação com esta iniciativa (pois ganha em volume), o que faz do Brasil ainda um dos países com uma das taxas mais altas do mundo? Respondendo a esta pergunta, o presidente da Serasa Experian, em entrevista ao Giro Business, é enfático ao dizer: a socialização da inadimplência.

Inadimplência socializada
Na dinâmica do mercado financeiro todos são colocados no mesmo barco: somam-se os que arcam pontualmente com seus compromissos com aqueles que atrasam os pagamentos para que, assim, seja definida a taxa média de juros. Segundo Valim, no Brasil, ela é uma das mais altas do mundo devido a diversos fatores estruturais. “Primeiramente, porque nós temos a Selic, que já é a maior taxa básica real de juros em relação a outros países. E, depois, a socialização da inadimplência, que faz com que 40% do spread bancário seja fruto dela. Como consequência, juros altos influenciam diretamente na amplitude de concessão de crédito”, enfatiza.

Reversão: crédito positivo
Para o presidente da Serasa Experian, a forma de não generalizar os financiadores é a implantação do cadastro positivo de crédito, uma metodologia na qual o comportamento financeiro do consumidor pretendente ao crédito é analisado a partir de informações compartilhadas entre os diversos setores da economia. “O cadastro positivo valoriza os consumidores que honram seus compromissos, dando a eles as melhores condições de juros e prazos. A nossa expectativa é que ele seja aprovado o mais rápido possível para ampliar esse processo de crédito e ajudar no crescimento do país”, diz. Com uma participação de cerca de 40% do PIB ou um volume de R$ 1,2 trilhão, bem distante dos países desenvolvidos onde esse percentual é superior a 100%. “No Brasil há uma assimetria muito grande na informação entre os tomadores de crédito e os concedentes. Os concedentes não conhecem o hábito de pagamento dos consumidores e nem o seu comportamento. O cadastro positivo tem como objetivo valorizar os que honram com seus compromissos e isso é uma evolução necessária no modelo de concessão de crédito”, explica.

Desconfiança do consumidor
Para conter os avanços do custo do crédito sem frear a economia é prioritário o Governo reduzir os juros. Apesar do corte de 1,5% na taxa Selic pelo Banco Central, em março deste ano, o nível dos juros permanece alto, na ordem de 11,75% ao ano. Mas não basta apenas pensar em juros. Outras iniciativas devem ser colocadas paralelamente em prática, tais como a redução da carga tributária, o estímulo ao crédito e as mudanças nas leis trabalhistas, uma vez que são exatamente os salários um dos itens que mais oneram as empresas, com encargos que chegam a 90% da folha de pagamento.

Do lado do consumidor, em tempos atuais ronda o fantasma do desemprego. Em março deste ano, apenas as empresas paulistas fecharam 236.500 vagas. Assim, é mais do que natural que as pessoas fiquem mais rigorosas em suas decisões de compras e receosas com endividamentos. Sem emprego e, consequentemente, sem renda, apenas os verdadeiros poupadores e os bons investidores conseguirão superar essa fase de transição da economia. Isso fará com que o mercado esteja absolutamente transparente para definir quem é o bom e o mau consumidor. Ainda que haja algumas críticas sobre sua eficiência, se há um momento ideal para a aprovação do cadastro positivo é agora. Ou nunca!

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Sérgio Waib Idealizador e apresentador do programa Giro Business, Sergio Waib é empresário da área de comunicação, com passagens pela Young & Rubican, quando foi diretor de novos negócios e Jovem Pan, quando atuou como diretor comercial.
Site: www.girobusiness.com.br
E-mail: contato@girobusiness.com.br
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