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ARTIGOS

Habitação

Autor: Sérgio Waib
Data: 06/04/2009

Casa própria. Um sonho distante para muitos brasileiros

Um problema que se alastra por décadas no Brasil é o déficit habitacional, estimado em cerca de 8 milhões de moradias. Resolvê-lo não é uma tarefa fácil. Segundo uma recente pesquisa do Datafolha, a tão esperada casa própria habita nos sonhos de muitos brasileiros. Depois do carro, o imóvel próprio é o objeto de desejo dos jovens do país. E haja trabalho para isso e muita economia! A não ser, é claro, que se tenha uma herança ou um bom pé-de-meia. Mas, como essa não é a realidade da grande maioria da população e os financiamentos ainda são altos, para muitos a casa continua no sonho. Só para se ter uma ideia, para financiar R$ 100 mil em um prazo de dez anos, paga-se um valor final de mais de R$ 150 mil, considerando um financiamento pelo sistema de amortização, a uma taxa de juros anual de 8,16%, mais a TR (Taxa Referencial).

Como diz a canção de Zé Rodrix e Tavito, na voz suave de Elis Regina, “eu quero uma casa no campo, onde eu possa ficar no tamanho da paz...”, reflete bem a anseio de milhares de brasileiros. Mas, especificamente no Brasil, 12 milhões de pessoas vivem em favelas, ou 14% da população. No mundo inteiro são 1 bilhão de moradores em condições insuficientes, conforme estatísticas da ONU, onde muitas vezes há uma forte carência dos sistemas de água e esgoto e, até mesmo, de asfalto. É o famoso “choveu? Corre para salvar o que puder”.

Para reverter essa triste realidade, ou pelo menos amenizá-la, na penúltima semana de março o governo anunciou um novo programa habitacional, denominado “Minha Casa, Minha Vida”, que prevê a construção de um milhão de moradias populares até 2010. O mercado já reagiu ao anúncio, conforme explicou João Crestana, presidente do Secovi-SP, em entrevista ao Giro Business, e, na Construção Civil, a previsão é de que novos empregos sejam gerados e, assim, como já diz Chico Buarque, será nessa força de trabalho que espera-se ouvir, um a um, “subiu a construção como se fosse máquina, ergueu no patamar quatro paredes sólidas, tijolo por tijolo num desenho mágico...”, tornando, literalmente, concreto o sonho de alguns milhares de brasileiros.

Especulação certeira
Mesmo antes do anúncio oficial do governo, declarações feitas pelo presidente Lula, em fevereiro, indicavam que o novo programa já estaria por vir, o que causou uma reação imediata no mercado de ações. Em 2008, as 33 empresas do setor imobiliário com papéis na bolsa de valores somavam quedas de 60% em seus valores de mercado. De fevereiro até dois dias antes do anúncio oficial, esse percentual se reverteu, em uma alta de 13%. Para Crestana, mais importante do que os percentuais é a solidez dessas empresas. “Esse resultado a curto prazo certamente é um reflexo imediato do anúncio do governo. Não é tão importante que elas cresçam 13% e nem importante que elas tenham tido uma queda de 60%. O importante mesmo é que elas estão se tornando empresas cada vez mais sólidas, que participem deste movimento de mercado e que correspondam às expectativas do governo”, diz, acrescentando que, com a crise mundial, todas as empresas com ações nas bolsas perderam bastante. “Nosso setor tornou-se mais evidente nesse cenário por estar recentemente neste mercado de ações, ao contrário de empresas tradicionais que têm papéis negociados há cerca de 30 anos”.

Canteiro de obra a todo vapor
Maior geradora de empregos no país, a construção civil também só tem a comemorar com a iniciativa do governo. Em 2008, segundo o Sinduscon, o setor terminou o ano com um crescimento 10,2% superior a 2007 e com a soma de 2,914 milhões de postos de trabalho, bem à frente do setor de telesserviço, segundo maior empregador no Brasil, com um total de 850 mil empregos diretos e mais centenas de indiretos. “Espera-se que, quando as casas estiverem finalizadas, tenham sido gerados entre 400 mil e 500 mil novos postos de trabalho”, prevê o presidente do Secovi-SP.

Uma luz no fim do túnel para um setor que previa manter o nível dos postos de trabalho até o primeiro trimestre deste ano, amparado por obras já contratadas tanto de infra-estrutura, como de projetos imobiliários.

Entre cimento, tijolo, vidros, pisos e muito mais, pequenas construtoras e fabricantes de materiais de construção também se mobilizam em prol da habitação. O momento é agora e uma oportunidade para toda a cadeia produtiva que envolve o setor de construção. Afinal, vale lembrar que, em vésperas de ano eleitoral, é de praxe o governo abrir suas torneiras. Já para 2011, ainda não sabemos o que nos espera.

No Brasil é diferente
A grande questão da moradia no Brasil não está apenas relacionada à oferta de crédito, como também à falta de uma política de urbanização para o uso consciente do solo, o que ocasiona construções desenfreadas em locais de riscos. Por outro lado, a ampliação da concessão de crédito já demonstrou que não é a melhor saída, visto que nos Estados Unidos a liberação de financiamentos sem critérios resultou na bolha imobiliária e, consequentemente, gerou a crise financeira que se alastrou por todas as economias mundiais.

O que se faz necessário são políticas públicas eficientes como, por exemplo, o modelo da Inglaterra que, desde a Segunda Guerra Mundial, bate forte nessa tecla, além de ter adotado uma política habitacional voltada para o uso consciente do solo urbano. Hoje, o que se vê na Europa – que também não está isenta de problemas habitacionais – são assentamentos precários diretamente relacionados com a imigração de povos de outras localidades.

Mas, especificamente no Brasil, resolver problemas de moradia com mais oferta de crédito é um tiro no escuro. A maioria das pessoas que compõem a pirâmide do déficit habitacional ganha entre zero e três salários mínimos, o que, por si só, já demonstra a inviabilidade em poder arcar com o pagamento de financiamentos mensais. Uma saída seria uma política de subsídio ao aluguel, uma vez que, segundo estimativas, no país há cerca de 6,5 milhões de casas e apartamentos vazios. Portanto, é questionável se a melhor solução para o problema é a construção de novas moradias.

Enquanto neste universo de cimento e concreto não há definições contundentes, o Brasil continua tapando o sol com a peneira!

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Sérgio Waib Idealizador e apresentador do programa Giro Business, Sergio Waib é empresário da área de comunicação, com passagens pela Young & Rubican, quando foi diretor de novos negócios e Jovem Pan, quando atuou como diretor comercial.
Site: www.girobusiness.com.br
E-mail: contato@girobusiness.com.br
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