Universo do Papel
Autor: Sérgio Waib
Data: 30/03/2009
Um registro de muitas histórias e memórias.
O que seria do mundo sem o papel!
Desde os primórdios, o ser humano tem a necessidade de se comunicar. Tanto que, nos tempos mais remotos, os nossos ancestrais fizeram seus primeiros registros por meio de pinturas e gravuras nas pedras que compunham o seu habitat natural. Ao longo de milênios, foram muitas as formas de se expressar. Na Índia, por exemplo, usavam-se folhas de palmeiras; na China, as escritas eram feitas em conchas e em cascas de tartaruga e, os esquimós, acredite, expressavam-se em ossos de baleia e dentes de foca!
A grande inovação, sem dúvida alguma, veio com a criação do papel pelos egípcios, cerca de 3.000 anos antes de Cristo. Ao longo do tempo, o advento definitivamente conquistou a humanidade como um elemento essencial para a difusão do conhecimento, da educação, para o registro de nossa própria história e, mais importante do que tudo, em uma profunda mudança nas economias mundiais: moedas, ações, contratos são todos papéis de muito valor.
E se a riqueza dos povos está timbrada em papéis valiosos, para boa parte da população, a riqueza maior – o conhecimento – depende também de papéis, dos livros, das enciclopédias e de seus cadernos. Para um bom aluno, um bom livro pode ser o bem mais precioso de sua juventude. Quem não se lembra de seu primeiro livro?
Infelizmente, ainda nos dias atuais, para muitos brasileiros ter um livro ou um caderno é quase impossível. Por aqui, 73% dos livros estão concentrados nas mãos de apenas 16% da população. Além disso, os leitores mais ávidos à leitura estão na classe A, com uma média de 3,7 livros lidos por ano, enquanto que o público da classe C consome, em média, 1,3 livro anualmente e os públicos das classes D e E menos de 0,5 ao ano. Ou seja, justamente quem mais precisa de leitura é quem menos tem acesso a ela.
A boa notícia é que, enquanto no ano 2000 o país somava 26 milhões de leitores, em sete anos esse número saltou para 66,5 milhões. O incentivo à leitura começa com a educação e há muito a ser feito – sem contar que, no Brasil, cerca de 2,7 milhões de crianças não frequentam a escola devido ao trabalho infantil. Mas isso já é outra história…
Segundo Maximo Pacheco, presidente da International Paper, em entrevista ao Giro Business, o consumo de papel está diretamente relacionado, respectivamente, à educação, ao uso da informática e à renda. Assim, quanto mais desenvolvido o país na área educacional, maior o consumo. E é isso que os números comprovam.
Universo ilimitado
Na Alemanha, que tem excelência em ensino, o consumo de papel é de 368,8 kg por habitante ao ano. Em patamares um pouco inferiores estão os Estados Unidos, o Japão e o Canadá, nos quais o consumo anual fica entre 210 kg a 290 kg. Já o Brasil está bem longe desses índices, com uma média per capita de 42,2 kg. E o motivo se deve principalmente a fatores socioeconômicos, tais como baixa renda per capita, baixo nível de escolaridade, exclusão social, além do número reduzido de programas governamentais de incentivo à educação e à cultura, voltados à população de baixa renda. Se elevarmos o consumo per capita brasileiro de papel para 66,7 kg/ano, equivalente ao do Chile, teríamos um acréscimo no consumo de mais de 5 milhões de toneladas anuais.
Para Maximo Pacheco, o Brasil tem todo o potencial para a evolução do consumo. Enquanto a economia nacional cresceu, em média, 2,5% ao ano, entre 1997 e 2007, nesse mesmo período o consumo e a demanda de papel aumentou a taxas anuais de cerca de 10%. “Ao contrário do que muitos diziam no passado, o uso da informática não comprometeu o consumo de papéis, pois sempre perto de um computador há uma impressora”. Curiosamente, nos Estados Unidos, com o início do uso do e-mail, o consumo de papel aumentou 40%! É a mesma velha conversa de que a televisão substituiria o rádio e que a internet substituiria os jornais e as revistas. Uma lenda digna de um bom livro de histórias!
Mas onde estão os incentivos?
Como já é de praxe no Brasil, a alta carga tributária nos setores da economia sempre é um estímulo à informalidade e, no setor de papéis, adivinhe, não poderia ser diferente. Como um incentivo à produção de materiais gráficos – entre eles livros e revistas –, o Governo dá a isenção da carga tributária no chamado papel imune. Para se ter uma ideia, no mundo todo, a indústria só entrega diretamente à gráfica 25% de sua produção, enquanto os 75% restantes são escoados da indústria para as gráficas por intermédio da distribuição. Já no Brasil esses números são invertidos, o que ajuda a promover a informalidade no uso indevido de papel imune. Enquanto isso, o setor arca com encargos superiores a 20% no total de seus investimentos e, ao consumidor final, a tributação que incide no papel sulfite é de quase 39%. “Quem se aproveita da isenção promove uma competição ilegal e, consequentemente, há redução de receitas. O interessante é que o Brasil está melhorando as práticas de negócios, contribuindo assim para a queda dos índices da informalidade”, comentou o presidente da International Paper. E que assim seja, pois a informalidade aumenta os custos de produção e todos nós pagamos por isso.
Clima favorável para o setor
Em 6º lugar no ranking mundial como maior produtor de celulose e em 12º lugar na produção de papel, o Brasil tem todos os quesitos necessários para se tornar uma potência nesse segmento. Maximo Pacheco explicou que enquanto nos países europeus, no Canadá e nos Estados Unidos o eucalipto leva cerca de 15 anos para se desenvolver, aqui em apenas 7 anos a planta já está madura. Isso se deve ao clima favorável, tropical, diferente dos países frios. “Além disso, o país é abundante em riquezas naturais, com muito solo e água”, destacou. De uma área total de florestas plantadas, estimada em 851,4 milhões de hectares, a produção de eucalipto ocupa no Brasil 0,7% deste total, sendo toda ela em áreas de replantio. No Japão, por exemplo, o eucalipto já domina 26,5% da área florestal e, na Índia, 9,9%.
Na balança comercial, os ventos também sopram a favor. No ano passado, o superávit foi de US$ 4,2 milhões um aumento de 23,2% em relação a 2007. Pouco mais da metade da celulose que é produzida no Brasil é consumida pelas próprias empresas integradas (fábricas de papéis). Cerca de 55% são vendidas para o exterior e cerca de 10% são comercializados no mercado interno. Já a grande parcela de produção de papéis atende ao mercado interno, sendo apenas 15% destinados ao exterior.
Descarte politicamente correto
Um exemplo para muitos, hoje o Brasil é líder mundial em reciclagem de latas de alumínio. Entretanto, no descarte de papéis, o país ainda caminha para a excelência. Atualmente, a taxa de recuperação de papéis recicláveis equivale a 46,9% do consumo aparente. Na Alemanha, por exemplo, essa taxa chega a 70% e, na Espanha, 64%. Vale dizer que cerca de 40% de todo o lixo urbano é composto por papel. Para reverter esse percentual em prol do meio ambiente e à economia nacional, mas uma vez a premissa é uma só: a educação. Só assim, o país deixará de ser coadjuvante para assumir o papel principal nesse setor!
| Sérgio Waib Idealizador e apresentador do programa Giro Business, Sergio Waib é empresário da área de comunicação, com passagens pela Young & Rubican, quando foi diretor de novos negócios e Jovem Pan, quando atuou como diretor comercial. |